Prefeito prometeu apurar; mas governo optou por sair em defesa do negócio feito

O comparativo que não engana e a empresa com capacidade de fornecer meio milh]ão de produto à Prefeitura
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Vinte e quatro horas depois de o prefeito de Ilhéus, Mário Alexandre, garantir que iria reavaliar a capacidade de uma pequena empresa de Coaraci, inaugurada em dezembro de 2019 e com capital declarado de 50 mil reais, assumir um contrato de mais de meio milhão de reais para fornecimento de álcool em gel para a Prefeitura, o governo decidiu sair em defesa do negócio fechado. Pelo direcionamento do argumento, deve manter o contrato.

Um card, distribuído através das redes sociais, mídia institucional onde a administração atua com desenvoltura, apresenta uma espécie de comparação de preços entre o álcool em gel que está adquirindo e os oferecidos por outros dois concorrentes: um mercado popular e uma indústria local de perfumaria.

O card intitulado Prefeitura garante transparência do álcool gel, com logomarca do governo identificando a autoria, apresenta uma foto do produto comercializado pelo Mercado Meira, ao preço de R$ 28,99 a unidade. Outro, pela Avatim, ao preço de R$ 36,00 a unidade. E apresenta o valor do produto adquirido pela Prefeitura junto à empresa de Coaraci: R$ 19,75 (também equivalente à unidade por litro).

Não precisa ser matemático para, logo no primeiro momento, chegar à conclusão de que as comparações não merecem confiança. Não passam de um simples jogo de valores para confundir a população. Mistura varejo e atacado. Unidade e grande quantidade.

Entenda: tanto o preço do Meira quanto o da Avatin, apresentados na imagem do card, são valores direcionados ao consumidor direto, final, àquele que compra unidade por unidade nas lojas e não milhares de frascos como a Prefeitura. O valor unitário de qualquer produto tem relação direta à quantidade estabelecida no produto.

Quando você chega numa loja, você pergunta: “quanto custa um frasco...” é um preço. Quando você pergunta “e quanto você faz em 20 frascos”, jamais será o mesmo valor. No caso da Prefeitura, a relação é “quanto custam milhares de frascos”.

É, claramente, outro tipo de relação de preço. Não dá para fazer comparativo. Isso é elementar, meu caro gestor.

Ademais, é preciso esclarecer: O primeiro questionamento feito pela imprensa não estava nem direcionado à relação de preço. Esse seria, sem dúvida, o segundo questionamento.

O primeiro é óbvio: Para participar de uma dispensa de licitação de valor tão alto, o primeiro aspecto que deve ser considerado no negócio deve ser a capacidade de estoque do fornecedor. Sua capacidade de atender a demanda.

Tese que ontem, ao se pronunciar, o prefeito defendeu. Ele não falou em preço como justificativa. Disse que o produto está em falta e este seria o fornecedor encontrado, em condições de atender à prefeitura.

Vale ainda ressaltar que no extrato publicado no Diário Oficial - de onde se originou a denúncia - não consta valor algum do produto vencedor e o histórico cita a compra de “tamanhos diversos” e não apenas o frasco de um litro mostrado na ilustração.

Como comparativo da Prefeitura de Ilhéus, só é mais justo quando feito com outra prefeitura. Vamos aqui fazer um novo exercício de raciocínio. Por exemplo: a vizinha Itabuna.

A Secretaria de Saúde de Itabuna comprou recentemente R$ 254.042,18 de álcool gel, o equivalente a 14 mil e 307 litros, que custaram numa média de R$ 17,75. Produto já foi entregue. Se a Prefeitura de Ilhéus comprasse o álcool gel nessa média de preço (R$ 17,75) passaria a ter um estoque de 27 mil e 616 litros, quase o dobro de Itabuna.

Esse estoque adquirido por Itabuna, segundo informações do setor, deve durar quatro meses. Portanto, Ilhéus terá estoque do produto em seu almoxarifado por mais tempo. Deve-se, entretanto, avaliar que o sistema de saúde de Itabuna conta com Unidades Básicas de Saúde, média e alta complexidade, Vigilância Sanitária, UPA. É o dobro do sistema de Ilhéus. Segundo a mesma fonte, a Prefeitura de Itabuna ia comprar uma quantidade maior, porém as empresas, embora consolidadas no mercado, não tinham estoques suficientes, para entregar.

O que o Jornal Bahia Online questionou em sua matéria-denúncia é justamente isso: a capacidade de uma empresa recém-aberta, com capital de apenas 50 mil reais, atender a uma compra de porte tão grande, de meio milhão de reais, quanto à pedida pela Prefeitura de Ilhéus. Levando em conta, principalmente, que as grandes empresas, com muito mais tempo de mercado e, portanto, mais consolidadas, contam no momento com a mesma dificuldade de estoque.

Apesar da defesa que o governo decidiu fazer do seu fornecedor, essa pergunta, infelizmente, não foi respondida.

Para conhecer detalhes da denúncia, clique aqui.